Gualter Ego @ 00:00

Sex, 19/11/10

Fez-se silêncio.

Falando numa linguagem mais romântica, com adjectivos sensuais e curvas femininas, já há algum tempo que esta mulher, jovem e rosada, que aqui vemos, havia prostrado o seu corpo nu no chão do corredor, estreito e recto, levemente respirando a suavidade áspera e deliciosa da alcatifa, e num acto que parecia ser de rebeldia, sisuda, aos poucos adormecia.

Talvez beba demasiado café, talvez as imparcialidades da rotina diária, aquele perpétuo suspiro monótono, lhe atormentem a consciência corrompida pelo fumo dos carros e pelo sol quente que chateia, nos tempos de Outono, quando o dia é frio e cinzento e assim o é agradável, sem nada que se mexa, nem outro algum acontecimento digno de referência nem sequer em diário pessoal, exceptuando o som que as folhas secas fazem ao ser pisadas; talvez o despertador se tenha esquecido de tocar, talvez o leite tenha arrufado. Talvez.

Suspirou, o gato miou. Ouve vozes ao fundo e os beirais a pingar, que a chuva fez o favor de cessar e ainda não se romperam de novo as nuvens grotescas, lá no alto; fez-se silêncio.

Quando adormecer, porque lá adormeceu, nua, sem termos caído na tentação de lhe ler as sinuosidades eróticas do corpo, não poderá sonhar com ele: algo, assim, imaculado, cristalino e intocável, um corpo, um sonho, a hora de dormir, não deve ser roubado, sem mais nem menos, pela libido em chamas, de um homem frágil e sem talento, com problemas em falar de amor, exagerando a dor. Sonhará então, que alguém, ilustre figura ou pobre desconhecido, morria. Ou então, acordaria em prantos, suando, porque havia sonhado com uma cor que não existia.

 

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Figura grotesca, nariz grande, dentes tortos, amarelos e olheiras fundas (que coisa mais pouco digna de um retrato), sentado numa cadeira de madeira carunchosa, grunhindo sob o peso do corpo que nela, sentado, se contorce em seu próprio nojo, e de todas as outras vidas que ele recusou viver, num quarto a tresandar a merda, e não, caríssimo leitor, não me desculpo pelo termo usado, dadas as circunstâncias. Unhas por cortar, corpo por aliviar, alma por lavar: lambe os lábios num esgar nervoso, quase furioso, esfrega os dentes com o dedo indicador, que há muito não indica coisa alguma e sorri violentamente, a mostrar as gengivas encarnadas, cheias de chaga. Que pode ele mais fazer, neste cenário dantesco e rançoso, que acender um cigarro, segurá-lo entre dois dedos escanzelados e trémulos e chupá-lo sofregamente até ao fim? Custa-lhe estar com os olhos abertos, custa-lhe respirar; dói-lhe o corpo, ao pensar.

E ao pensar não pensa em concreto, pensa no branco vazio, na querida escuridão que transbordaria e fugiria do quarto, se abrisse uma janela, ou uma porta. Falta-lhe algo, sempre lhe faltou algo. De tanto pensar em escuros brancos vazios cheios de nada em concreto, dá por si já a fumar o filtro do cigarro. Conformado que é, conformado que está, copo meio-cheio de tão vazio que é, arrasta-se até à cama, deita-se de barriga para cima e adormece, a sorrir às traças e às melgas que atacam, incessantemente, o candeeiro do tecto.

Que ignorância saborosa, a destes pequenos insectos.

 

 


Bandas:

Joanna Andrade @ 00:08

Dom, 21/11/10

 

Rapaz, você escreve de um modo único, tem um dom, acredite.
Fez-me ver, ver, não imaginar, tudo o que lia. E toda essa vista me embaraçou quando parei para ver o significado de alcatifa. Senti-me especialmente estúpida. E eu já a havia visto. Porém, depois voltei à leitura. E se as palavras me permitissem, se o fim se dissipasse, não sairia nunca mais. Fiquei extasiada. Eu não conhecia a música, mas gostei de tê-la ouvido agora.
"I need some sleep./You can't go on like this./I try counting sheep/But there's one I always miss". É uma tristeza confortante. Como chocolate quente e cobertores em dias de frio. Nos torna apenas crianças sozinhas. Novamente, crianças sozinhas. E quem de nós nunca foi? E hoje está frio, acho que pegarei meu edredon e farei algo quente para beber. Já perdi o fio da meada, voltando ao que estava falando...
O design do blog ficou muito bom, parabéns aos que trabalham nele.
Beijos, até mais :*









joaodiogolouro @ 22:41

Seg, 22/11/10

 

Ao som da música fica perfeito, indescritível mesmo.

“A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende” Arthur Schopenhauer
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